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A generosidade e o cristão

A generosidade pode ser apontada como um princípio que deve nortear o coração de todo aquele que foi atingido pela graça de Deus, ou seja, é a virtude daquele que se dispõe a sacrificar os próprios interesses em benefício de outrem.

Em outras palavras, a generosidade traz uma ideia de liberalidade, de se importar com as demandas do nosso próximo. E esse é um tipo de movimento que bate de frente com nossa própria natureza carnal, ainda mais quando influenciada pelos valores do nosso tempo (zeitsgeist), que são pródigos de individualismo e egoísmo.

Pessoalmente, a vejo como a expressão de um coração cheio de gratidão, que não se pauta na avareza, no “juntar tesouros” que a traça comerá, mas, como um privilégio, uma dádiva divina, em um constante fluxo de bençãos que não se encerra na pessoa, mas é compartilhado como manifestação das “boas-novas” do Reino de Deus, já no nosso mundo.

Quando falo em fluxo, isso me faz recordar da hidrografia de Israel, que conheci em uma viagem àquele belo país, há uns 2 anos atrás. Nós temos lá, o Mar da Galiléia (também chamado de Mar de Tiberíades ou Lago de Genesaré) e mais ao sul, temos, o Mar Morto, e ligando ambos, o Rio Jordão.

Com efeito, a região ao norte, onde fica o Mar da Galiléia, foi onde Jesus realizou boa parte de seu ministério terreno e é uma região muito bonita, com vegetações nas bordas e um ótimo produto, que são as tilápias de São Pedro (St. Peter’s Fish), como elas são chamadas lá, fazendo alusão ao nome do apóstolo de Jesus, que era pescador.

Ou seja, o Mar da Galiléia pode metaforicamente representar a PESSOA GENEROSA, pois ele recebe fluxo das correntes que nascem nas montanhas, já perto das Colinas de Golan, e esse fluxo não fica parado ali no mar, pois o fluxo é jogado no Rio Jordão.

Por sua vez, o Mar Morto pode ser visto como a representação da pessoa que NÃO É GENEROSA. Ele recebe o fluxo do Rio Jordão, porém, a água fica represada ali mesmo. Não por outra razão, o Mar Morto perdeu 35% de sua superfície entre 1954 e 2014. Ou seja, é como se o Mar Morto fosse aquele tipo de pessoa que diz “venha a nós, o teu Reino”, porém, ela é incapaz de se dispor a ser benção na vida de outros, gerando assim, como regra, um ser amargurado e triste, na sua eterna contabilização de ganhos x perdas monetárias ou de tempo.

Porém, quando olho para Jesus, a chave-exegética para toda a compreensão do texto bíblico, me deparo com alguém que provou através dos seus atos, o mais alto grau de generosidade, a ponto de ter se esvaziado (Kenosis) de parte de sua glória para estar aqui neste mundo, nos ensinando o que era o amor e para nos salvar.

O interessante, neste ponto, é que Jesus ele demonstrava sua generosidade, de forma ampla, tanto quando via pessoas com necessidades materiais, como com necessidades espirituais. Para Ele, não havia essa dicotomia que vemos alguns hoje em dia defenderem, de que o que importa é apenas o aspecto espiritual da pessoa, não sendo papel da igreja se preocupar com o que rotulam de “mero assistencialismo”.

O que quero dizer com isso? É que quando apareciam famintos no caminho de Jesus, ele se prontificava a saciar a fome delas, como ocorreu, por exemplo, na multiplicação dos pães, fato também chamado de milagre dos cinco pães e dois peixes (Mateus 14:13-21, Marcos 6:31-44, Lucas 9:10-17 e João 6:5-15), ou no primeiro milagre dEle, quando o vinho já havia acabado em um casamento de Caná (João 2:1-11), saciando outra demanda dos que estavam no local.

Por outro lado, quando apareciam pessoas sedentas de demandas espirituais, Jesus também se prontificava a curá-las, como, por exemplo, quando fez demônios serem expelidos do gadareno, que vivia há tempos entre sepulcros (Marcos 5), ou apaziguando a dor, o sofrimento, quando chegou até a ressuscitar mortos e fazer cegos verem ou simplesmente apenas passando o seu tempo e ensinando as boas-novas, como fez com o baixinho Zaqueu, publicano que queria apenas ver Jesus de cima de uma árvore, e Jesus quis ter refeição com ele. Que privilégio inimaginável para aquele pequeno homen.

Infelizmente, o que temos visto em muitas igrejas, são líderes que reduzem a questão da generosidade, apenas a uma questão de dinheiro, de dízimos e de ofertas, sendo que a generosidade é algo muito mais amplo do que isso.

Talvez seja essa visão diminuta do que é, de fato, a generosidade para o Evangelho, que faça com que igrejas arrecadem, até 20 bilhões de reais em nosso país, por ano, porém, infelizmente com um papel social extremamente reduzido, como regra. Imagine a revolução que poderíamos fazer neste país com tanto dinheiro, ainda protegido de imunidade tributária. Parece que para determinadas igrejas, o importante parece ser manter os líderes com o status de marajás, apenas para saciar seu ego e vaidade.

Tempos atrás, fiquei sabendo de um caso, que vi na internet, quando contava-se, com bastante segurança, que um pastor havia escolhido morar no mesmo bairro de uma capital brasileira que morava o prefeito, porém, fazia questão que o arquiteto e engenheiro fizessem uma casa mais bonita, com mais destaque do que a do prefeito.

Ou seja, uma total inversão de valores e vazio, que me fez lembrar de uma música chamada “LIKE G6” (Como um G6), do grupo Far East Movement. Eu gostei desta música que ouvi em um filme semana passada (Pai em Dose Dupla) e queria saber o que era o tal “G6”. Aí, fui ler que a inspiração foi a seguinte: Os autores da música sabiam que o famoso rapper Drake, que é canadense, mas famosíssimo nos Estados Unidos, tinha um jatinho particular chamado GULFSTREAM IV (ou seja, um G4), porém, eles (os autores da música) queriam um “G6”para tirar mais onda.

Parece um exemplo banal e é, mas, mostra infelizmente como na nossa sociedade, as coisas andam um tanto com a pá virada, pessoas sem rumos, sem propósitos maiores de existência, que não um hedonismo compulsivo e que não traz felicidade.

Neste sentido, algo ainda mais danoso que vejo é quando aparentemente muitos irmãos só ajudem os próprios irmãos da sua igreja, em uma clara acepção de pessoas, que é algo maligno (Tiago, 2,9).

Ou seja, se o fulano ou sicrano não é da minha igreja, suas demandas podem ser esquecidas ou relevadas. Será que não foi esse espírito que estava na mente de alguns jogadores cristãos de um conhecido time de futebol, que se negaram recentemente a visitar crianças, que se encontravam em uma instituição espírita?

Falando de espíritas, temos que ser honestos e reconhecer que muitos ali são bem mais generosos do que cristãos, sendo que mais de uma vez, vi da boca de diferentes irmãos, o seguinte argumento para se referir aos espíritas neste ponto: “Mas, eles só fazem isso, porque para eles a salvação é por meio de obras, e não da fé”. Isso é justificativa para muitos cristãos serem omissos na área social ou quando muito, “ ativistas de sofá “. E o que é um “ativista de sofá” ? É um personagem novo que apareceu na sociedade com o advento das redes sociais, que não fazem nada pelos outros em seus cotidianos, limitando-se apenasa dar seus LIKES e compartilhar posts ou assinar abaixo-assinados virtuais.

Se, de fato, a Bíblia, nos ensina que a salvação vem pela fé, esta tem que ser externada através de atos concretos, sendo que os capítulos 8 e 9 de 2 Coríntios tratam especificamente da exortação para que amemos e auxiliemos os necessitados.

Não é muito diferente, a meu ver, de exortações que Jesus, traz, quando fala do Juízo Final (um tema raramente tratado hoje nas igrejas) e cita alguns critérios ali que serão considerados, vejamos: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. (Mateus 25: 34-40).

Por fim, gostaria apenas de deixar claro a questão que cito acima de que a generosidade é muito mais do que dinheiro ou dar bens materiais. E uso a minha própria vida para exemplificar aquilo que acreditar.

Eu, mesmo, faço uma auto-análise aqui, pois até bem recentemente, eu era visto como uma pessoa extremamente prestativa e generosa, por outras pessoas. Mas, aquilo começou a me incomodar interiormente, depois de uma compreensão maior que tive do Evangelho.

Como assim? Pessoas me procuravam muitas vezes para eu ajudá-las, querendo compartilhar coisas comigo, que eu desse tempo para ouvir suas lamúrias ou gastar um tempo ali com elas, de repente, apenas para chorarmos juntos, sentir um pouco da empatia necessárias. E qual era o meu procedimento?

Muitas vezes, eu simplesmente dava uma ajuda financeira rapidamente, como forma de tirar aquele “incômodo” de perto, já que eu não podia, no meu egoísmo, ter tempo a perder. É como se eu pensasse que cada um deve se virar com sua própria cruz. Isso tem um nome: INDIFERENÇA. Se a pessoa vive na depressão, amargurada, etc., eu, não tinha absolutamente nada a fazer, pois não era psicólogo e nem Deus para mudar muitas vezes coisas que não iam mudar.

Daí, eu que busco me pautar tanto na racionalidade, esquecer que muitas vezes a pessoa não queria da minha parte uma “solução cartesiana”, mas alguém para compartilhar seus dramas, seus vales existenciais.

Hoje, vejo que talvez o Golias que eu vou ter que derrubar, pra buscar estar mais generoso, é o apego que tenho às redes sociais, ao computador, etc. Vem solapando todos os dias, momentos que eu poderia perfeitamente estar gastando e aproveitando com qualidade com minha família e com as demais pessoas.

Infelizmente, estou, em muitos momentos, inserido nesta coisa impessoal e distante que temos visto na nossa atual geração (os atuais “millenials”, jovens que cresceram depois do ano 2000), onde a comunicação entre as pessoas parece ter se resumido a cliques nos Whatsapp e Facebooks da vida, como se não tivéssemos mais tempo suficiente para dar àquele abraço gostoso e dizer para as pessoas como a presença física delas é importante, o olho no olho, etc.

Que eu possa estar buscando em Deus, mais generosidade, mais preocupação com o meu próximo, e espero de coração que algo neste meu texto tenha ajudado a despertar uma centelha que seja de positivo nesta área para quem teve a paciência de lê-lo. SOLI DEO GLORIA.

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